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26 maio 2010

dignidade

«O que de mais fútil há no homem», pensou ele, «é esta busca de dignidade.» Essa gente toda a procurar ser digna! Digna de quê? Se a história da humanidade não passava dum longo pesadelo sanguinário, era justamente por causa de semelhantes tolices. Como se o facto de se estar vivo não fosse em si uma dignidade. Só os mortos são indignos, e Gohar só estimava os heróis vivos. Estes, por certo, não se perturbavam com essas lérias da dignidade.

extraído de "Mendigos e Altivos", de Albert Cossery

17 dezembro 2009

os homens esquecidos de deus

«Mas apesar de tudo não queriam morrer. Mendigar um pedaço de pão aos que lhes tinham tirado tirado tudo era ainda, para eles, uma hipótese de viver. E chamavam-lhes mendigos ou ladrões conforme a sua insistência em viver.»

in O barbeiro matou a mulher
Os homens esquecidos de Deus, de Albert Cossery

21 julho 2008

as cores da infâmia

«O que mais alegrava Ossama era contemplar o caos. De cotovelos apoiados no corrimão da passagem aérea cujos pilares metálicos rodeavam a praça Tahrir, ruminava ideias atrevidamente contrárias aos discursos propagados pelos pensadores oficiais, os quais garantiam que a perenidade de um país estava subordinada à ordem. O espectáculo que tinha diante dos olhos condenava sem apelo essa afirmação imbecil. Desde há algum tempo que aquela construção, imaginada por engenheiros humanistas para evitar aos infelizes peões os perigos da rua, lhe servia de observatório panorâmico, reforçando a sua íntima convicção de que o mundo poderia continuar indefinidamente a viver na desordem e na anarquia.»

As cores da infâmia, Albert Cossery