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26 maio 2010

dignidade

«O que de mais fútil há no homem», pensou ele, «é esta busca de dignidade.» Essa gente toda a procurar ser digna! Digna de quê? Se a história da humanidade não passava dum longo pesadelo sanguinário, era justamente por causa de semelhantes tolices. Como se o facto de se estar vivo não fosse em si uma dignidade. Só os mortos são indignos, e Gohar só estimava os heróis vivos. Estes, por certo, não se perturbavam com essas lérias da dignidade.

extraído de "Mendigos e Altivos", de Albert Cossery

28 dezembro 2009

Estou sujo. Roído de piolhos. Os porcos, quando olham para mim...vomitam!

d'Os Cantos de Maldoror, por Isidore Ducasse

17 dezembro 2009

os homens esquecidos de deus

«Mas apesar de tudo não queriam morrer. Mendigar um pedaço de pão aos que lhes tinham tirado tirado tudo era ainda, para eles, uma hipótese de viver. E chamavam-lhes mendigos ou ladrões conforme a sua insistência em viver.»

in O barbeiro matou a mulher
Os homens esquecidos de Deus, de Albert Cossery

04 setembro 2008

o tecido do outono

«É engraçado: os homens, cada um à sua medida, tinham o poder e, tirando os padres nos púlpitos, não era bonito falarem de amor. Lembro-me do tempo em que era uma vergonha um homem falar de amor em público. Tinham conversas reservadas com putas sobre o mal que sofriam lá em casa e, se fosse preciso, depois batiam-lhes. Ainda há muito disso. As pessoas batem-se por tudo e por nada e, normalmente, quem não foi treinado para desenvolver a sua alma, só lhe resta a violência e a astúcia como meio de comunicação com os outros. Em relação a esses, não há nada a fazer. É esperar que eles morram e vão nascendo outros melhores. Mas quem comanda tudo nem são bem as pessoas: são os seus hábitos, os seus costumes, o que ouviram dizer aos que dizem que sabem a verdade: é sobretudo o espírito do tempo. As pessoas só são responsáveis por não serem capazes de ver logo que isso é uma aberração.»

excerto do capítulo VI, "O Tecido do Outono", António Alçada Baptista

23 agosto 2008

onde vivi e para que vivi

«Rumei para os bosques porque queria viver deliberadamente, fazer face apenas aos factos essenciais da vida e ver se podia aprender o que ela tinha a ensinar-me, sem chegar a descobrir, às portas da morte, que não tinha vivido. Não queria viver o que não era vida. Viver é demasiado importante. Nem queria praticar a resignação, a menos que tal fosse necessário. Tencionava viver profundamente e absorver a vida até ao âmago, viver de forma tão vigorosa e espartana como arrancar tudo o que não fosse vida pela raiz, desbastando um amplo espaço, deixando-o raso, encurralar a vida e reduzi-la aos seus termos mais elementares e, se fosse medíocre, retirar-lhe toda a genuína mediocridade e divulgar tal mediocridade ao mundo. A verdade é que a maioria dos homens, parece-me, sente uma estranha incerteza quanto a tudo isto (será obra do Demo ou de Deus?), concluindo de forma célere que o principal objectivo do homem aqui é "glorificar Deus e desfrutá-lo eternamente".

Contudo, vivemos na mediocridade, quais formigas, mesmo que a fábula nos conte que há muito tempo nos transformámos em homens. Lutamos com gruas, quais pigmeus. É erro sobre erro e remendo sobre remendo, e a nossa melhor virtude decorre de um infortúnio supérfluo e evitável. A nossa vida é desperdiçada em pormenores. Um homem honesto dificilmente precisa de contar para lá dos seus dez dedos, podendo, em casos extremos, acrescentar os dez dedos dos pés e que o resto se acumule. Simplicidade, simplicidade, simplicidade! Digo-vos "que as vossas labutas sejam duas ou três, não uma centena ou um milhar, que ao invés de contardes um milhão contai meia dúzia e terão uma ideia geral das contas". No meio deste mar picado da vida civilizada, tais são as nuvens e tempestades e as areias movediças e mil e um itens a ter em conta, que um homem tem de viver, para não se mergulhar e ir ao fundo antes sequer de chegar ao seu porto, por estimativa, tendo ainda de ser um grande calculista com êxito. Simplificar, simplificar.»

excerto de "onde vivi e para que vivi", de Henry David Thoreau

21 julho 2008

as cores da infâmia

«O que mais alegrava Ossama era contemplar o caos. De cotovelos apoiados no corrimão da passagem aérea cujos pilares metálicos rodeavam a praça Tahrir, ruminava ideias atrevidamente contrárias aos discursos propagados pelos pensadores oficiais, os quais garantiam que a perenidade de um país estava subordinada à ordem. O espectáculo que tinha diante dos olhos condenava sem apelo essa afirmação imbecil. Desde há algum tempo que aquela construção, imaginada por engenheiros humanistas para evitar aos infelizes peões os perigos da rua, lhe servia de observatório panorâmico, reforçando a sua íntima convicção de que o mundo poderia continuar indefinidamente a viver na desordem e na anarquia.»

As cores da infâmia, Albert Cossery


02 abril 2008

livro infantil


Celebra-se hoje o dia internacional do livro infantil.

Vêm-me à memória o meu primeiro livro (literatura juvenil e não infantil, mas é o primeiro que me lembro): Os Cinco e o Circo, da Enid Blyton...

... e o último: O Livro da Avó, do Luís Silva.



[Recordo ainda que a minha colecção - completa!! - d' Os Cinco foi conseguida à custa de um tio que durante uma série de anos ma ofereceu ao ritmo de dois livros por ano, um no aniversário e outro no Natal. Certo que no início parecia uma prenda um bocado aborrecida, mas acabou por se tornar numa das mais desejadas e o ritmo de dois livros por ano revelou-se insuficiente (e entraram o Conan Doyle, o Daniel Defoe, o Dumas e o Mark Twain ao barulho, mas isso fica para outra ocasião)...]

09 dezembro 2007

crooked little vein [(s)light return]

«The sun was down by the time I got down to the lobby, full of people who worked for rich people. The rich people stay somewhere else. Their people stay at the Z on the expense account. People, talking about being people with people. People shoptalk. The people community. Magazine-beautiful, but almost pathologically uncharismatic. A swarm of pretty drones. Several of them looked me up and down. I was just unshaven, disheveled, stinking, and confused-looking enough to be Somebody. They wheighed my wallet with X-ray vision. Perhaps I need people.

I navigated past the swarm as best as I could. Some of them floated in my direction while appearing to be continuing their conversations. I rearranged my jacket, allowing them to see my gun. Six backed off, but three got erections.»

excerto de Crooked Little Vein, por Warren Ellis



crooked little vein

«I've said I love you when I've meant it, and I've said I love you when it was the right thing to say, and I've said I love you when saying anything else would have hurt someone without reason. And I couldn't say a word, there in the dark.»

excerto de Crooked Litlle Vein, por Warren Ellis